Respeito às autoridades

Já foi dito que se você quer conhecer uma pessoa, dê um pouco de autoridade para ela. E eu concordo com esta afirmação. E acrescento outra: se você quer conhecer uma pessoa, veja como ela se comporta numa crise de autoridade. Poucas situações da vida mostram quem somos, e o que pensamos, quanto quando estamos diante de uma autoridade em crise. Se você e eu desconfiamos que uma autoridade não está agindo com competência ou está demonstrando dúvidas sobre quais decisões deva tomar, imediatamente agimos como se nós tivéssemos o direito de não mais respeitá-la.

Tudo bem que muitas autoridades, em variados seguimentos, fazem coisas que claramente não deveriam ter feito. Mas será que isto nos dá o direito de não respeitar estas autoridades? Outras vezes as autoridades tomam decisões que, mesmo que estejam corretas, não concordamos com elas. Mas, se não concordamos com a autoridade que está sobre nós, será que o caminho é difamá-la e desacreditá-la? Talvez pareça surpreendente para alguns, mas Deus não aprova que se difame uma autoridade, por pior que ela seja. Mesmo que uma autoridade seja extremamente cruel, ou ímpia, ou que promova muitos males aos Seus servos, Deus não aprova nenhum tipo de desonra à autoridade.

Veja alguns exemplos.

a. A AUTORIDADE DOS PAIS
Os pais são as primeiras pessoas com quem aprendemos o conceito de autoridade. Antes mesmo de sabermos falar ou andar, já aprendemos que eles são autoridade e que, a despeito dos nossos desejos, precisamos nos sujeitar a eles. Mas à medida que crescemos um pouco, bem pouco, começamos a aprender, também, o conceito de insubordinação. Uma das primeiras coisas que respondemos aos nossos pais, mesmo antes de sabermos construir uma frase completa, é: “Não!” e crescemos com isto em mente. Podemos dizer não à uma ordem dos nossos pais.

Quando entramos na adolescência, nos tornamos verdadeiras “sentinelas do erro”. Ficamos atentos a toda e qualquer atitude dos pais. Basta que eles cometam um erro, por menor que seja, e já lhes jogamos no rosto o que fizeram de errado e usamos isto como argumento para não nos sujeitarmos à autoridade deles. Quando um filho não aprende a respeitar e honrar seus pais em casa, dificilmente ele respeitará e honrará o professor na escola, o policial na rua e o líder na comunidade.

Entretanto, o que as Escrituras dizem sobre isso? A Bíblia manda obedecer e honra aos pais, e afirma que isto é justo e que fará com que vivamos bem e muito tempo sobre a Terra (Ef 6:1-3). Repare que estes versículos não dizem que só devemos obedecer aos pais se eles nunca tomarem decisões erradas. Também não dizem que só devemos honrá-los se concordamos com eles. Independentemente do que pensamos das regras que eles impõem sobre nós, é a vontade de Deus que honremos nossos pais.

Há um exemplo triste nas Escrituras de um filho que não honrou seu pai e, por isto, morreu cedo. Absalão desonrou seu pai de várias maneiras. Ele não concordava com as decisões do seu pai e não se sujeitava a elas. Num rompante de insubordinação, enquanto lutava contra o exército do próprio pai, morreu de uma forma vergonhosa, dolorosa e precoce (II Rs caps. 15 e 18).

Lembre-se: desonrar a autoridade dos pais pode resultar numa morte prematura.

b. A AUTORIDADE DOS GOVERNANTES 
Como a maioria de vocês eu não concordo com as decisões tomadas pelos nossos governantes. Muito do que eles falam, não fazem. E muito do que fazem não deveriam nem ter pensado em fazer. Mas ultimamente não estou tão preocupado com suas decisões. Confesso que minha maior preocupação é com a forma como nós nos referimos a eles. Acredito que não esteja exagerando ao dizer que não é conveniente desrespeitar ou tratar os governantes com desprezo. Uma coisa é eu não concordar com a forma como governam e decidem, outra bem diferente é a forma como eu reajo a isso. Quero deixar claro que eu não concordo com o aborto, com o aumento de impostos, com a corrupção ou qualquer outra atitude que fira os ensinos da Bíblia, mas isto não me dá o direito de ser desonroso ao me referir a quem está em autoridade no país.

Novamente digo: talvez seja surpreendente para alguns, mas Deus não aprova qualquer tipo de desonra ou ofensa aos governantes, mesmo que eles sejam tão ímpios e cruéis. Uma verdade importante que sempre devemos lembrar é que é um erro cometer um erro para corrigir outro erro. Não é porque os governantes erram que nós temos o direito de errar também, desonrando-os.

J. Boyd Nicholson, num comentário sobre I Pedro 2:17 diz o seguinte:

“ ‘Honrai ao rei’ deve ser uma atitude contínua. Esta admoestação é notável quando lembramos que Nero era o imperador nos dias de Pedro. Talvez as suas palavras e seus feitos não eram louváveis, mas sendo o poder estabelecido por Deus, ele tinha que ser reconhecido.

Esta admoestação é oportuna em nossos dias, quando as pessoas falam com desdém das dignidades e se envolvem em discussões políticas e afrontas pessoais contra os que estão em autoridade. O soberano propósito de Deus pode determinar que um líder maligno esteja no poder, para levar avante os planos divinos (Romanos 9:17; Êxodo 9:16; Habacuque 1:6). Eis aqui a perplexidade de todos os que querem se envolver na política. O ‘melhor homem … ou mulher’ talvez não seja a escolha de Deus para a presente situação.

Podemos honrar o rei, ou governante por obedecer à exortação: ‘que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em eminência’ (I Timóteo 2:1-2). O cristão tem mais poder para auxiliar seu país na reunião de oração do que na cabine de votação. Alguém poderá anular o seu voto, mas ninguém poderá anular as suas orações. Daniel, por meio de suas orações, influenciou os governos da Terra, moveu o poder do Céu e foi conhecido nas portas do inferno”.

Pense nessas palavras do Sr. Nicholson. Por mais que pareça estranho, Deus mesmo estabelece os governantes que terão autoridade em cada país. Nem sempre estes governantes serão bons e justos. Quando Pedro escreveu que devemos nos sujeitar às autoridades e honrá-las (I Pe 2:13-14, 17), ele estava pensando nas autoridades da sua época. E naqueles dias o imperador era Nero, um dos piores homens que este mundo já conheceu! Só para citar algumas das suas atrocidades, Nero foi o homem que mandou matar o apóstolo Paulo, orquestrou o assassinato da própria mãe, colocou fogo em Roma e acusou os cristãos, mandava matar os cristãos de formas extremamente cruéis. Entretanto, escreve Pedro enquanto este homem estava no poder: “Honrai ao rei”!

Certamente nenhum cristão concordava com as atrocidades, propósitos e decisões de Nero, mas isto não lhes dava o direito de desonrá-lo. Da mesma forma, há muita coisa que os governantes do nosso país fazem e nós não concordamos com eles, mas não é nosso direito desrespeitá-los, nos referindo a eles de formas pejorativas.

Desonrar a autoridade dos governantes pode acarretar em males ainda piores (Rm 13:1-7).

c. A AUTORIDADE DOS ANJOS
Nenhum de nós duvida da autoridade que os anjos têm. Eles são maiores e mais fortes do que nós, e são seres que podem fazer coisas que nem o ser humano mais forte conseguiria sequer começar a fazer. Mas neste artigo não estou me referindo aos anjos santos, que servem a Deus. Me refiro aos anjos maus, que servem a Satanás. É verdade que eles pecaram, foram expulsos do Céu e não podem mais exercer as mesmas responsabilidades que exerciam antes. Mesmo assim, a Bíblia deixa claro que jamais devemos tratá-los de forma desonrosa. Pela terceira vez afirmo: pode ser surpreendente dizer isto, mas Deus não quer que desonremos a autoridade de Satanás e seus anjos.

O apóstolo Pedro escreveu a respeito disto. Ele fala de homens que “desprezam as autoridades”, chegando mesmo ao ponto de “blasfemar das dignidades” (os anjos). Logo depois, ele cita o exemplo dos anjos santos que, apesar de serem maiores do que nós em força e poder, não ousam desonrar os anjos caídos (I Pe 2:10-11).

Fico impressionado com a ousadia de muitos segmentos religiosos que falam de Satanás como se estivessem falando de um mero mortal. Falam dos anjos maus como se estivessem falando de uma criança indefesa. Um cristão jamais deve agir assim, porque nem mesmo os anjos que servem a Deus agem assim. O arcanjo Miguel é a maior autoridade entre todos os anjos. Mas nem mesmo ele tratou o diabo (que também é um anjo) com desrespeito (Jd vs. 8-9).

Com muita propriedade, Albert McShane escreveu:

“A terceira acusação contra estes homens é a sua blasfêmia das “dignidades”. Aqui podemos ser mais específicos, pois a referência é aos poderes espirituais criados, tanto do bem como do mal … Eles se sentem em liberdade para, com a língua solta, difamar estas “dignidades”, e esquecem que tais seres estão em posição mais elevada que os mais elevados homens. Mesmo que tenham caído, como no caso de Satanás, devem ser mencionados com reserva e respeito. Satanás e seus agentes podem difamar os santos, e assim fazem, mas isto não dá liberdade ao homem mortal para blasfemar contra ele e seus associados. Embora a rebelião de Satanás e daqueles que se associaram com ele tem mudado a sua posição e diminuído a sua glória, ele ainda é um ser poderoso e um que Deus usa para cumprir os Seus propósitos.

Em contraste nítido com estes difamadores de “dignidades”, Judas cita o caso de Miguel e o seu conflito com Satanás, no enterro de Moisés … Temos que deixar o assunto aqui, e concentrar nossa atenção na principal razão desta referência ao corpo de Moisés, que é demonstrar quão
respeitoso até o arcanjo Miguel foi, enquanto disputava com Satanás. Mesmo em posição superior e tendo maior poder do que Satanás, ele recusou exercer sua força ou usar palavras para humilhá-lo, mas deixou o assunto nas mãos do Senhor, e disse, “O Senhor te repreenda” […].

[…] Não é incomum ouvir pessoas chamando Satanás de todo tipo de nome derrogatório, e representando-o de formas grotescas, mas os santos não podem envolver-se em tais assuntos, pois eles sabem algo do alcance do seu poder e influência. Parece que mesmo quando anjos e homens caem do seu estado elevado, devem ser tratados com o mesmo respeito como se não houvera mudança”.

É claro que você e eu não concordamos com nada do que Satanás e seus anjos fazem. Eles são maus e cruéis, e trabalham para tentar acabar com a obra de Deus. Mesmo assim, jamais devemos usar palavras desonrosas para nos referir a eles. Eles são autoridades, e precisam ser tratados com respeito. Fazer chacotas ou zombar deles é uma atitude que Deus não aprova.

Portanto, tomemos mais cuidado diante de qualquer autoridade. Sejam os pais, sejam os governantes, sejam os anjos que pecaram. Não importa se discordamos deles ou se eles agem com crueldade. Desonra-los não é o caminho. Não precisamos concordar com eles, mas também não precisamos difamá-los.

Ao invés de falar mal de uma autoridade, fale com Deus a respeito desta autoridade. Palavras ditas em oração podem fazer muito mais do que palavras ditas em desonra!

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