Relacionamentos abalados na quarentena (Parte 1)

Os números falam por si. Dados atualizados dão conta de que, enquanto escrevo este artigo, são 196 países afetados diretamente pelo Covid-19, 7 milhões de infectados, mais de 402 mil mortes, 2 milhões de curados pelo mundo.

Em paralelo a esses dados assustadores, há um outro número crescente, que não chama a atenção das pessoas, apesar da sua gravidade. Desde o início do isolamento social, o número de pessoas dando entrada em pedido de divórcio aumentou de forma vertiginosa. Seus números também falam por si. Em alguns países, a taxa de divórcios mais do que dobrou nesta pandemia. Como o mal causado pelo novo coronavírus, se a causa dos divórcios não for controlada, deixará um rastro de dor emocional tão profunda quanto a dor física causada pelo covid-19.  

Mas isso é estranho, muito estranho!

Por conta da quarentena, as estatísticas deveriam seguir em sentido contrário. Pense comigo. O marido geralmente sai cedo de casa, trabalha 8 horas no dia e volta para casa. Em tese, aquele tempo trabalhando são as horas mais ativas do dia. Ao chegar em casa, ele terá entre 3 e 4 horas de convívio ativo com a família até a hora de deitar e pegar no sono. Suas próximas 7 ou 8 horas serão passadas dormindo. Ao levantar-se, terá cerca de 2 horas de convívio familiar até que saia para cumprir as 8 horas de trabalho (as duas horas restantes são divididas no trajeto entre casa-serviço-casa).

Com a chegada do novo Corona Vírus e a obrigação de se isolar em casa, as oito horas de serviço foram convertidas em horas com a família. É verdade que muitas casas foram transformadas em escritório, mas isso não tira o privilégio da questão. Marido e esposa que antes se encontravam somente à noite, em tese estão agora vinte e horas lado a lado. Teoricamente, deveria ser bom para o casamento, afinal de contas, o marido não poderá, agora, dizer à esposa que está sem tempo de consertar o armário. Nem a esposa poderá dizer que não tem razão de fazer bolo de cenoura para o lanche da tarde.

Repito: teoricamente, seria de se esperar que marido e esposa estivessem aproveitando cada dia desta quarentena, fortalecendo o vínculo do amor (Gn 24:67), redescobrindo a alegria da vida conjugal (Gn 26:8), fortalecendo a unidade (Ec 4:12) e desfrutando de um dos privilégios inerentes ao matrimônio (Pv 5:18-19).

Mas não é isto que está acontecendo. Pior, a verdade não é só que os privilégios do matrimônio não estejam sendo desfrutados; é que estão sendo solapados, expugnados e substituídos por ações, reações, sensações e coerções negativas. Falando claramente, os casais estão fazendo mais mal do que bem um ao outro nesta quarentena.

E a pergunta é: por quê?

As respostas são várias, mas quero sugerir que se resumem numa coisa: o tempo de proximidade está mostrando para um cônjuge o pior que há no outro, e vice-versa.

Desde que se casaram, quando foram as ocasiões em que marido e esposa passaram tanto tempo juntos? Perdoem-me se eu estiver errado, mas descontando algum período de doença ou desemprego, as ocasiões em que ficaram tantas horas na companhia um do outro foram duas: lua de mel e férias.

1 – Lua de mel. Creio que você concordará comigo, leitor, que é injusto comparar a quarentena com a lua de mel. Isto porque, nos primeiros dias de casado, o casal não somente quer passar o maior número de horas juntos, dia e noite, como faz de tudo para que esse tempo seja “eterno enquanto dure”.

2 – Férias. Embora num nível mais baixo e numa intensidade menor, as férias são como a lua de mel. Quando um ou os dois cônjuges saem de férias, geralmente já têm tudo planejado. Viajarão ou vão adquirir alguma coisa que desejavam há tempos, visitarão pessoas ou ficarão em casa para receber as visitas das férias de alguém. Ou seja, férias muda a rotina, mas não tira o prazer.

Mas esta quarentena … Ela não veio equipada com a empolgação da lua de mel, nem com a viagem das férias (“Fique em casa”, mandou ela). Ela veio simplesmente colocar frente a frente duas naturezas opostas que nunca se atritaram. Ou, quando raramente houve atrito, não ficaram tempo suficiente na companhia uma da outra para que o ferro esquentasse e as espadas fossem afiadas.

Os maiores e piores defeitos de um é colocado bem de frente do outro, e isto por horas, dias, semanas … e lá se vão três meses e contando …

Enfim, o que quero dizer com tudo isso? Quero dizer que você e seu cônjuge estão experimentando, talvez pela primeira vez na vida, o que é passar tanto tempo na companhia um do outro sendo expostos a defeitos que tanto irritam. Muitos casais espalhados pelo mundo estão procurando no divórcio a solução para isso. Entretanto, afirmo que o divórcio não é a melhor solução para transformar o defeito do seu cônjuge em qualidade. Não resolverá o problema do seu cônjuge, e nem o seu!

O melhor mesmo é lembrar de alguns princípios básicos que devem reger a vida de um casamento. Quais princípios? É o que veremos a partir do próximo artigo. Até lá, façamos o favor de não irritar nossos cônjuges.

Um abraço!

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