O pior da crise

O PIOR DA CRISE

A crise passou, enfim!

Já não era sem tempo.

Não foi a pior, sem dúvida, mas mostrou o meu pior.

O pior desta crise não foi a incerteza do que aconteceria no dia seguinte. Dúvidas sobre o amanhã todo mundo tem; quem não? Eu! Eu dizia sempre que confiava em Deus. Que acontecesse o que acontecesse, soprassem ventos ou levantassem ondas, eu estaria sempre confiado nAquele que controla o vento e o mar. Mas esta crise mostrou o pior da minha confiança. Bastou uma pequena marola e um insignificante assopro e cá estava eu, todo trêmulo, acordando o Mestre.

O pior desta crise não foi a falta de sangue para o carro. Pior mesmo foi a falta de sangue em minhas pernas para cumprir minhas tarefas. É verdade que os doentes acamados, as ovelhas desviadas, os fracos desmotivados, moram três quarteirões depois. Mas eu não fui visitá-los. Me acostumei a chegar acelerando, não andando. Esta crise intrusa expôs isto para todo mundo ver.

O pior desta crise não foi a escassez de alimentos nas prateleiras do mercado, foi a escassez de sentimentos no meu coração. Pensando apenas em mim, planejei comprar a maior quantidade possível de alimentos e estocá-los, sem nem mesmo pensar que enquanto eu colocava as dez últimas latas em meu carrinho, a senhora ao lado não tinha conseguido pegar nenhuma. Não era pra essa crise intrometida revelar isto. Não era. Ninguém antes sabia que eu era egoísta. Agora todo mundo sabe como penso só em mim, e que se virem os outros!

O pior desta crise não foram as enormes filas nos postos para abastecer o carro. Fila eu enfrento no banco, no hospital, na sorveteria. Pior, mesmo, foi a minha falta de educação e respeito passando meu carro na frente de quem estava ali há duas horas e meia antes de mim. Todo mundo me acha gentil, educado e generoso, mas bastou está crise me deixar meia hora debaixo do sol e, pronto! Agora ficou patente para qualquer pessoa o quanto não respeito minha vez. Ninguém sabia que eu era mal educado. Sabia disto, crise? Ninguém sabia! Mas você revelou, você e sua mania de não guardar segredos.

O pior desta crise não foram as notícias desencontradas dos jornais. Pior mesmo foi notar que eu estava mais preocupado com o noticiário do que, necessariamente, com o que a Bíblia diz. Cada hora eu vidrava meus olhos e ouvidos no que se diria, mesmo que repetissem a mesma coisa. Mas eu não demonstrei o mesmo interesse em ler e conhecer as notícias da Palavra de Deus de hora em hora. Ah! Como seria diferente se eu estudasse a Bíblia e confiasse em suas promessas com o mesmo afinco com que li e confiei nos jornais! Ninguém sabia que eu lia tão pouco a Bíblia, e nem precisavam saber. Mas esta crise (ah! como me revolto por lembrar dela!) mostrou para todo mundo que eu creio mais nas promessas dos noticiários do que no que Deus diz.

Outras crises virão, eu sei, mas que não sejam tão nuas e cruas como esta. Caso contrário, os poucos defeitos meus que ainda consigo esconder serão derramados em praça pública.

Para mim, este é o pior de uma crise!

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