As duas espadas

Quando o Senhor Jesus estava no cenáculo com os discípulos, Ele usou a ocasião para falar e ensinar muitas coisas a eles (João 13-17 são cinco capítulos inteiros descrevendo alguns dos assuntos tratados ali). Ele sabia que naquela mesma noite seria preso e no dia seguinte crucificado. Por isso, desejou passar algumas instruções aos discípulos para que eles não ficassem desolados e desesperados.

Os detalhes apresentados em Lc 22:35-38 mostram que, enquanto estava lá, o Senhor lhes fez lembrar da ocasião quando Ele os mandou pelas aldeias e supriu todas as suas necessidades (v. 35). Agora, quando Ele seria preso e crucificado, Ele queria preparar o coração dos discípulos para o iminente perigo que eles correriam logo após sua prisão, por isso disse: “Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a”, e logo falou da Sua crucificação (vs. 36-37). Ou seja, durante os dias quando estaria ausente deles pela morte, eles estariam em perigo e precisavam ficar atentos.

O Senhor não estava ensinando, nem insinuando, a eles, que tomassem espadas literais e ficassem espertos pra combater os oponentes. Mas como já havia acontecido várias vezes, os discípulos não entenderam o que o Senhor queria dizer, e responderam: “Senhor, eis aqui duas espadas” (v. 38). Esta resposta dos discípulos, bem como a atitude deles logo depois, mostra que, tristemente, tinham entendido tudo errado. Veja algumas etapas desta má compreensão:

a) No cenáculo.
Quando disseram que tinham duas espadas, o Senhor logo respondeu: “Basta”. Isto não quer dizer que o Senhor concordava com eles. Este “basta”, não é alguma coisa do tipo: “Estas duas espadas são bastante, suficientes”. Não! Este “basta” é alguma coisa do tipo: “Já basta deste tipo de conversa” (Norman Crawford – Comentário Ritchie, vol. 3, pág. 469); “a conversa deveria terminar” (J. Heading – Comentário Ritchie vol. 1, pág. 469); ou, “já chega de tanta má compreensão”.

As pessoas que vieram prender o Senhor Jesus formavam uma “grande multidão com espadas e varapaus” (Mt 26:47). Eles eram muitos e bem armados, com uma quantidade grande de espadas. Será que os discípulos (que a esta altura eram onze), sendo tão poucos, sem qualquer habilidade e contando apenas com duas espadas poderiam resistir àquela grande guarnição? Fisicamente, seria impossível! Eles deveriam ter entendido que o Senhor não lhes estava mandando se precaver com espadas literais.

b) Na comoção.
A falta de entendimento deles também foi evidenciada no calor do momento. Logo que a multidão bem armada chegou para prender o Senhor, os discípulos, sem saber o que fazer, e levados por sua má compreensão dos ensinos que receberam, perguntaram: “Senhor, feriremos à espada” (Lc 22:49). Eles manifestaram uma coragem impressionante. Mesmo os adversários sendo muitos e estando bem armados, eles iriam defender o Senhor lutando apaixonadamente. Contavam apenas com as duas espadas que carregavam, mas não importava. Bastava uma afirmação do Senhor e eles se entregariam à luta sanguinária até a morte.

Mas o Senhor não lhes respondeu. Ele já lhes tinha dito “basta”. Deveriam ter se contentado com isso.

c) No comportamento
Outro aspecto da compreensão deficiente dos discípulos aconteceu logo depois, na forma como se comportaram. Como não tiveram nenhuma resposta do Senhor à pergunta se deveriam “ferir à espada”, Pedro (que carregava uma das duas espadas) sacou a espada e cortou a orelha de Malco, o servo do sumo sacerdote (Jo 18:10). Mas o Senhor o repreendeu por esta atitude. Não deveria ter resistência alguma. Não era intenção do Senhor que os seus servos defendessem fisicamente o Seu reino (Jo 18:36), nem que milhares de anjos defendessem Seu corpo (Mt 26:53 – doze legiões seriam o equivalente a cerca de 72.000 anjos. Este número não é o total de anjos que existem).

Além disso, como forma de mostrar que Seu ensino e intenção não era que entrassem numa luta, o Senhor realizou Seu último milagre antes da crucificação, curando a orelha de Malco (Lc 22:51).

d) O contrário.
Agora, se eram duas espadas e só foi usada uma, onde estava a outra? Creio que a resposta é simples. A outra estava na bainha; ela não foi usada. Esta teve sua utilidade contrária à primeira.

Os discípulos tinham três opções. Primeiro, poderiam usar as duas espadas, causar um estrago maior e provocar uma batalha que poderia culminar na morte deles mesmos e no não cumprimento das Escrituras quanto ao Senhor. Segundo, poderiam usar apenas uma espada, como Pedro fez, e provocar os resultados que provocaram – alguém ferido e outro repreendido. Terceiro, poderiam ter deixado as duas espadas na bainha e não usar nenhuma, provocando obediência à ordem do Senhor e permitindo que as Escrituras se cumprissem naturalmente.

Estas também são opções que temos quando estamos com alguma “espada” na mão. As muitas discussões acaloradas entre nós, inflamadas por nossos temperamentos, e por vezes motivadas por alguma coisa fútil, sempre deixa alguém ferido e relacionamentos distanciados. Nas palavras de Norman Crawford, do Canadá, “ao procurarmos defender a verdade não devemos decepar orelhas. A verdade triste, porém, é que decepamos orelhas; alguns cujas orelhas decepamos (como Malco que foi completamente curado) não ficam permanentemente feridos, mas nunca se esquecem do golpe que os atingiu” (Comentário Ritchie, vol. 3, pág. 476).

e) Conclusão.
O que podemos aprender de todo esse evento envolvendo as duas espadas? Creio que, entre outras coisas, devemos aprender que:

1 – Devemos ter discernimento das coisas espirituais. A falta de compreensão do que realmente Deus quer de nós é um erro sério e extremamente perigoso. O surgimento das denominações (I Co 1:11-13), os erros relacionados ao não uso do véu e à ceia (I Co 11), interpretações estranhas sobre os eventos futuros (II Ts 2:1-3) são alguns dos muitos assuntos que foram mal interpretados durante muitos séculos e que continuam perturbando as igrejas. Uma forma segura de não incorrermos em erro de interpretação da Palavra do Senhor é usando mais (muito mais) tempo em cima da Bíblia, lendo com atenção e sincero interesse, orando e desejando a orientação do Espírito de Deus para compreendê-la.

2 – Devemos defender a verdade com amor. Por natureza, todos nós somos desequilibrados. Há situações quando somos duros e insensíveis demais para manifestar alguma gota de misericórdia. Há outras situações quando somos emotivos demais para segurar firme uma questão de justiça. Quando estamos certos em alguma questão, nos tornamos ferozes contra tudo e todos. Quando envolve nossos sentimentos, desculpamos o pecado.

A Bíblia nos diz para comprar a verdade e não vendê-la (Pv 23:23), e também diz para amar uns aos outros (I Jo 4:7-12). A junção destas duas coisas seria: “seguindo a verdade em amor” (Ef 4:15). “Seguir” a verdade sugere o desejo sincero por adquiri-la. “Em amor” sugere a forma como a verdade será vivida e ensinada. A forma como alguma verdade é ensinada, influencia muito na recepção ou rejeição do ensino. O resultado sempre é diferente quando “instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade” (II Tm 2:25).

3 – Devemos desenvolver o aprendizado em nossa vida. É curioso e instrutivo perceber que, depois do evento no Getsêmani, os discípulos não usaram mais espada alguma para defender a causa do Senhor. Muito pelo contrário. Em ocasiões posteriores, eles foram perseguidos, maltratados e mortos, mas se alegravam por padecer afronta pelo nome do Senhor Jesus (At 5: 41). A espada que eles usavam agora era a Palavra de Deus (Ef 6:17; Hb 4:12) e venciam seus oponentes pela oração (Ef 6:18).

Convém lembrar que há uma perigosa semelhante entre ter zelo de Deus sem entendimento (Rm 10:2) e desembainhar uma espada sem habilidade. Ambos sempre deixam cicatrizes dolorosas!

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