Aos pés do Senhor (III)

Finalmente, chegamos à terceira ocasião em que o Espírito Santo registrou os acontecimentos numa visita do Senhor à casa de Maria, Marta e Lázaro. Nesta ocasião, a tristeza deu lugar à alegria; às lágrimas deram lugar ao riso; e a morte cedeu sua vez à vida. Lázaro estava vivo, Marta alegremente servindo e Maria, como sempre, aos pés do Senhor Jesus Cristo (v. 3). Na primeira ocasião, ela estava assentada a Seus pés (Lc 10:39). Na segunda, estava prostrada (Jo 11:32). Agora, nesta terceira, Maria está curvada. Se na primeira ocasião ela aprendeu e na segunda almejou, nesta terceira a vemos adorando.

Há três detalhes importantes sobre essa adoração que Maria prestou ao Salvador.

a) Custo. Maria ungiu o Senhor com “um arrátel de unguento de nardo puro, de muito preço” (v. 3). Dizem que o nardo era um óleo aromático extraído de uma planta da Índia. Normalmente transportado e preservado em vasos de alabastro, seu aroma era agradabilíssimo.

Judas, na sua má intenção de roubar, nos ajuda a ter uma ideia do valor do perfume que Maria derramou aos pés do Senhor. Ele disse que aquele unguento poderia ser vendido por “trezentos dinheiros” (denários). Na parábola que o Senhor contou sobre os homens que foram assalariados, somos informados que “um dinheiro” (denário) era o equivalente ao salário de um dia de trabalho (Mt 20:1-2). Trezentos dinheiros, portanto, seriam mais ou menos o salário de um ano de trabalho.

Este foi o custo da adoração de Maria. O que para outros seria um desperdício de produto e dinheiro (v. 5), para ela foi uma forma de demonstrar reconhecimento e apreciação. Este é um dos princípios de adoração na Bíblia. Na primeira vez que adoração a Deus aparece na Bíblia, o adorador está dando algo custoso para Deus (Abraão entregando seu filho – Gn 22:5). Na primeira vez que adoração aparece no Novo Testamento, os adoradores estão dando coisas custosas ao Senhor (Mt 2:2, 11). Davi reconheceu este princípio e afirmou: “Não oferecerei ao Senhor meu Deus holocaustos que não me custem nada” (II Sm 24:24).

Adoração a Deus exige um alto preço.

b) Cuidado. Maria havia guardado aquele unguento de muito preço especialmente para o dia da sepultura do Senhor Jesus (v. 7). Não se sabe por quanto tempo, mas durante todo o período que aquele unguento ficou com ela, nunca foi usado para outro fim. É muito possível que na ocasião da morte de seu irmão ela já tivesse aquele unguento. Se isto estiver correto, então fica evidente que, para ela, nem mesmo seu irmão, que ela tanto amava, tinha um lugar tão destacado em seu coração quanto o Seu Senhor.

Isto não deve nos causar espanto. Aliás, o espanto deveria acontecer se fosse o contrário. Nunca devemos estimar os outros mais do estimamos nosso Salvador. Mesmo os relacionamentos conjugais e familiares, que são tão fortes, não devem ser mais fortes que nosso relacionamento com nosso Mestre (Mt 10:37). Ninguém nunca nos amou como Ele nos amou. E nunca deveríamos amar alguém mais do que O amamos.

Adoração a Deus exige amor abnegado.

c) Conhecimento. Outro princípio importante na adoração de Maria foi seu conhecimento e fé nos ensinos do Senhor. Olhando novamente para o v. 7, parece estranha a afirmação do Senhor contrastada com a atitude de Maria. Se ela havia guardado aquele unguento para o dia da Sua sepultura, por que não esperou até que Ele morresse para usar em Seu corpo? Na ocasião da morte do Senhor Jesus, outras mulheres foram bem cedo para ungir Seu corpo, mas Maria, de Betânia, não estava com elas (Lc 23:55-24:1). Por que não?

Porque ela entendeu que o Senhor morreria, sim, mas ressuscitaria. Seu corpo não ficaria no sepulcro tempo suficiente para se corromper (deteriorar-se, decompor). “Pois não … permitirás que o Teu Santo veja a corrupção” (At 2:27). O corpo de Lázaro esteve quatro dias no sepulcro e começou a cheirar mal (Jo 11:39), mas o corpo do Senhor não chegaria a esse ponto; ressuscitaria ao terceiro dia.

É bem possível que esta verdade tenha sido ensinada na casa dos três irmãos em Betânia, ou que Maria a tenha ouvido em outras ocasiões. Mas o que importa é que ela entendeu e creu nas palavras do Senhor. Seu entendimento sobre a morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo era muito mais aguçado do que o entendimento dos discípulos que, tendo ouvido sobre isso, “nada disso entendiam, e esta palavra lhes era encoberta, não percebendo o que lhes dizia” (Lc 18:34). Ela fez sua devoção antecipada, porque seu unguento não seria necessário na Sua sepultura.

Adoração a Deus exige conhecimento e reconhecimento da Sua Pessoa.

O custo é alto, mas nosso cuidado e conhecimento dEle devem ser compatíveis. Permita Deus que haja mais servos e servas como Maria, que aprendem das Suas Palavras, almejam a Sua presença e adoram a sua Pessoa.

(Artigo originalmente publicado na revista “O Caminho”, n. 62)

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