Aos pés do Senhor II

Almejando a Sua presença – Jo 11:1-32. 
 

A ocasião mencionada aqui é diferente em muitos aspectos da anterior. Se na primeira visita as circunstâncias eram alegres pela presença do Senhor, nesta segunda ocasião mencionada as circunstâncias eram de tristeza, porque a morte passara por ali. Lázaro ficou enfermo e morreu (vs. 1, 14). Suas irmãs mandaram um recado ao Senhor para avisá-Lo da enfermidade (v. 3). O recado não foi simplesmente para que o Mestre soubesse da doença; foi mandado porque elas sabiam que ele podia fazer alguma coisa. Elas almejavam a presença dEle ali em Betânia.

Mas o Senhor não foi durante o período de enfermidade, e Lázaro morreu. Quando, enfim, o Salvador chegou, as duas irmãs, em ocasiões diferentes, disseram a mesma coisa: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (vs. 21 e 32). As palavras delas não foram uma censura ao Senhor por não ter estado presença durante o período de enfermidade. Foram, na verdade, um reconhecimento do efeito que Sua presença provoca.

Repare que nesta ocasião, pela segunda vez, Maria está a Seus pés (v. 32). Agora ela não está assentada, está prostrada. Não é para aprender de Suas palavras, é para mostrar o quanto almejara Sua presença.

Repare também três lições importantes sobre a presença do Senhor Jesus Cristo.

  1. i)Efeito da Sua presença. As irmãs disseram: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (vs. 21 e 32). Elas não disseram que talvez ele poderia ter ajudado a socorrer Lázaro. Também não sugeriram que Ele poderia tê-lo curado. A afirmação delas é simples e profunda, “se Tu estivesses aqui”. Só a presença do Senhor Jesus Teria resolvido o problema. Ele não precisaria fazer nada. Nem precisaria dizer nada. Bastava estar presente. Por quê?

Em atos 3:15, Pedro fala dEle como sendo o “Príncipe da vida”. A palavra príncipe é a mesma palavra traduzida “Autor” em Hebreus 12:2. Ele é a fonte de onde toda a vida emana. O Evangelho de João começa com esta afirmação: “nele estava a vida” (Jo 1:4). Todo tipo de vida, seja física (At 3:16), seja eterna (Jo 11:25; 14:6) está nEle e vem dEle. Onde Ele está presente, a morte não pode resistir.

Esta verdade é mostrada nos casos de ressurreição que Ele efetuou. A mulher da cidade de Naim que, chorando, trazia seu filho morto, foi consolada pelas palavras dEle e por sua ordem irresistível: “Jovem, a ti te digo: levanta-te. E o defunto assentou-se e começou a falar” (Lc 7:14). Os pais da menina que a pouco falecera, presenciaram quando ele disse: “Menina, a ti te digo, levanta-te. E logo a menina se levantou…” (Mc 5:41, 42). Em sua própria morte e ressurreição, o Senhor mostrou este mesmo poder. Ele “inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19:30). A ordem normal dos fatos seria primeiro entregar o espírito, depois inclinar a cabeça. Mas Ele tinha pleno controle sobre Sua vida. A morte não podia levá-Lo. Ele teve que Se entregar. Na ressurreição Ele saiu da morte porque “não era possível que fosse retido por ela” (At 2:24). Qualquer pessoa que entra na morte não consegue sair. Mas todas as pessoas que ele mandou que saíssem, saíram. E Ele mesmo não pôde ser detido. A morte não conseguiu segurar Aquele que é o “Autor da vida”.

Por estas razões Marta e Maria almejaram tanto a presença do Senhor. Elas sabiam do efeito que Sua presença causava nas doenças e na morte. Bastava que Ele estivesse presente, e a morte não teria se aproximado do irmão delas. O Senhor disse aos discípulos: “Folgo, por amor de vós, de que eu lá não estivesse” (v. 15). Se Ele tivesse estado presente enquanto Lázaro estava enfermo, a morte não teria se aproximado. Para que ela pudesse chegar, era necessário que ele não estivesse. A morte não consegue estar onde Ele está.

Este também é o desejo de todo salvo. Almejamos sua presença por causa do efeito que ela causa. Muitos salvos têm partido deste mundo e atravessado a morte sem qualquer temor (Sl 23:4; Hb 2:15), mas esta não é nossa esperança. Nossa esperança é a Sua vinda para nos buscar. Quando Ele vir, todos os salvos que estiverem vivos jamais passarão pela morte. A presença dEle garante isso (I Ts 4:17).

  1. ii)Ensino dos Seus propósitos. O Senhor disse: “Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (v. 4). As três vezes que a palavra “para” é usada aqui, indicam os propósitos daquela doença. Deus não a permitiu com o objetivo de que a morte saísse vencedora, mas sim, com o propósito de que Ele mesmo e Jesus Cristo, Seu Filho, fossem glorificados. Foi exatamente isso que aconteceu. Após a morte, Lázaro foi ressuscitado, tirando da morte qualquer vantagem.

Além disso, por causa da ressurreição de Lázaro, muitos “que tinham visto o que Jesus fizera, creram nEle” (v. 45). Algum tempo depois, muita gente ia até Betânia para ver também a Lázaro. Ele era uma testemunha viva ddo poder de Deus e de Seu Filho sobre a morte (Jo 12:9). Instantes antes da ressurreição, o Senhor disse para Marta: “Se creres verás a glória de Deus” (v. 40). E ela viu. Não somente ela, mas todos que estiveram presentes e muitos outros que não estiveram. O propósito de Deus foi alcançado.

Algumas coisas na vida de um salvo não podem ser explicadas. Por que um homem “íntegro, reto e temente a Deus e que desviava-se do mal” perde tudo e todos que amava num só golpe (Jó cap. 1)? Por que um homem que em nada tinha sua vida por preciosa, mas dedicara-se mais do que todos os outros, recebeu um espinho na carne que o incomodava e limitava (At 20:24; I Co 15:10; II Co 12:7-9)? Por que quanto mais honesta e fielmente um salvo vive, mais sofrimento e perseguição ele sofre (I Pe 2:12, 20; 3:17)?

Não temos todas as respostas agora, mas há muito que aprender dos propósitos de Deus. Se Lázaro tivesse sido curado, a glória não teria sido tanta quanto foi o fato de ter sido ressuscitado. Se Deus tirar de nós todo “espinho” que nos incomoda, perderemos a chance de aprender com ele.

iii) Ênfase da Sua preocupação. Já vimos que o propósito pela morte de Lázaro foi alcançado. Mas ainda há uma pergunta que talvez nossa mente faça ao lermos esse relato. Será que a demora do Senhor Jesus em ir ver Seu amigo não revela falta de amor? Uma leitura cuidadosa de João cap. 11 mostrará que a pergunta acima merece um enfático não.

Este capítulo está cheio de demonstrações do amor do Senhor Jesus Cristo. O primeiro exemplo disso é exatamente o amor dEle por Lázaro. Quando suas irmãs enviaram o recado, não disseram que Lázaro estava enfermo, mas sim, que “está enfermo aquele que Tu amas”. A ênfase do recado delas estava no amor verdadeiro que elas sabiam que o Senhor tinha pelo irmão delas. Até os judeus que foram consolá-las reconheceram isso ao verem as lágrimas do Salvador: “Vede como o amava” (v. 36). A aparente demora do Senhor não foi, de forma alguma, falta de amor por Lázaro.

Também se destaca neste capítulo o Seu amor por cada um dos três irmãos. “Ora, Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro” (v. 5). Não havia diferença na medida do amor dEle. Ele não amava Lázaro mais do que a Marta, nem a Marta mais do que Maria. Seu amor tinha uma mesma medida por cada um.

Além disso, o amor do Senhor é visto também por Seus discípulos. “… por amor de vós”, disse Ele (v. 15). Por amor aos discípulos Ele ficou no lugar onde estava tempo suficiente para Lázaro morrer e Ele poder lhes ensinar outras lições.

Não houve atrasos na aparente demora do Senhor, muito menos falta de amor. Ele amava Seu amigo Lázaro, e suas lágrimas provaram isso (v. 35). Ele amava aquelas duas irmãs, e Seus sentimentos provaram isso (v.33 – “moveu-Se muito em espírito”; v. 38 – movendo-Se muito em Si mesmo”). Ele amava os discípulos, e Seus ensinos provaram isso.

Há lugar no coração de Cristo para o mundo inteiro. Há preocupação no amor dEle por cada um. Ele não ama um filho mais do que outro. Mas ele cuida de cada um como se fosse único!

(Artigo originalmente publicado na revista “O Caminho”, n 61)

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