A lição do silêncio (II)

No artigo anterior, vimos que o silêncio é o melhor argumento numa situação em que estamos com a razão e somos acusados de coisas que não fizemos. Penso que, se não todos, pelo menos a maioria concorda com este princípio. Mas surge uma outra questão: esta lição do silêncio se aplica a toda e qualquer situação, mesmo quando o assunto envolve ensinos contrários à Palavra de Deus? Neste caso, ficar em silêncio não seria, em última análise, se omitir diante do erro?

Antes de rasgar argumentos prós e contra, talvez seja interessante apresentar os “dois lados da moeda”. Quando devemos falar e quando devemos ficar em silêncio? Se for para falar, devemos defender o quê? Se for para ficar em silêncio, deve ser por qual motivo?

Para responder a estas perguntas, sugiro a consideração de dois assuntos: o ensino e os exemplos desta questão.

a) O ensino.

Há duas coisas que precisam ser vistas sobre o “ensino” a respeito de falar ou ficar em silêncio.

i – Entre os versículos mais interessantes e difíceis de explicar no livro de Provérbios estão Provérbios 26:4-5. Estes dois versículos apresentam um contraste. Parece que um diz para não fazer uma coisa e, no outro, diz para fazer exatamente o que foi dito para não fazer. Mas creio que o entendimento destes versículos está no final de cada um. Se é uma situação em que o tolo está falando de forma grosseira e inapropriada (usando palavras baixas, etc.) então não devemos responder da mesma forma que ele, “para que também não te faças semelhante a ele”. Por outro lado, o tolo precisa ser respondido, mas de uma forma que ele fique ciente da tolice de seus argumentos, para que ele “não seja sábio aos seus próprios olhos”.

Neste caso, sugiro que deve, sim, haver respostas. Esta é uma situação em que falar é necessário.

ii – Há, entretanto, outras situações em que falar não mudará em nada a situação, ou são situações em que não estamos em posição de provar nossa inocência. Em ocasiões assim, falar só piorará o problema. Nestes casos, penso que devemos seguir as palavras ditas por Sara, Jefté e Davi: “O Senhor julgue em mim e ti” (Gn 16:5; Jz 11:27; I Sm 24:12, 15). Devemos entregar a situação nas mãos de Deus e permitir que ele prove quem está falando a verdade ou não.

Neste caso, quando não temos condições de “provar quem está certo”, sugiro que devemos ficar em silêncio, deixando as coisas nas mãos de Deus.

b) Os exemplos.

A respeito dos exemplos, sugiro que, novamente, há duas coisas que precisam ser vistas.

i – Exemplos de defesa da fé.

Judas escreveu: “Tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi entregue aos santos” (Jd v. 3). Este e muitos outros versículos mostram a mesma ideia: a de que precisamos defender com afinco as verdades que abraçamos. Encontramos exemplos deste tipo de “defesa da fé” na vida do Senhor Jesus e dos apóstolos. Dois exemplos serão suficientes.

Em Mateus 23 o Senhor Jesus falou de forma bem séria e direta aos líderes religiosos da Sua época, combatendo os ensinos errados que eles ensinavam, e defendendo as verdades ensinadas na Palavra de Deus (Ele fez isto em outras partes também).

Outro exemplo disto é o do apóstolo Paulo. Quando alguns judeus desceram de Jerusalém e começaram a ensinar coisas erradas em Antioquia, ele e Barnabé tiveram grande “discussão e contenda contra eles”, defendendo a verdade do Evangelho (At 15:1-2).

Estes exemplos mostram situações quando falar é necessário!

 

ii – Exemplos de defesa de si mesmo.

Olhando novamente para o exemplo do Senhor Jesus e para o exemplo de Paulo, nós temos um padrão de comportamento em situações quando a defesa é da própria honra.

Os exemplos que citei no artigo “A lição do silêncio” (anterior a este), tirados da vida do Senhor Jesus, mostram casos em que Ele não tinha diante de Si a defesa da fé, mas sim, a defesa da Sua própria honra. Ao contrário de rebater, Ele ficou em silêncio.

Percebemos a mesma coisa em Paulo. Os capítulos 11 e 12 de II Coríntios se ocupam quase que exclusivamente em defesa de si mesmo e do seu apostolado. Mas repare o que ele mesmo diz em 11:1. Ele diz que o que vai falar (a partir dali) é “loucura” (é algo que ele não faria em outras situações), e em 12:1 ele diz: “Em verdade que não convém gloriar-me”. Ele está mostrando que defender a si mesmo não é uma atitude que ele faria em situações normais.

Estes dois exemplos, nestas duas situações, nos mostram o seguinte: quando o assunto é defender a doutrina ensinada na Palavra de Deus, devemos falar e argumentar o quanto pudermos e soubermos. Mas quando o assunto é defender a si mesmo ou a própria honra, então o silêncio será sempre o melhor argumento.

O complicado é que temos a tendência de fazer o contrário (falo com uma triste confissão nos lábios). Somos prontos para nos defender a nós mesmos, e tantas vezes vagarosos para defender as verdades que Deus nos ensinou. Mas não convém que seja assim. Devemos ser como leões para defender os ensinos da Palavra de Deus, mas como cordeiros quando tivermos de defender a nossa própria honra.

A questão é: por qual motivo eu me sinto ofendido? Se estou com uma vontade quase estranguladora de argumentar, é porque quero defender a Palavra de Deus ou porque estou querendo defender a mim mesmo?

Os ensinos e exemplos que vimos acima mostram uma conclusão bem difícil, mas muito necessária. Deus nos deu a responsabilidade de defender a Palavra dEle, mas deixou para Si mesmo o compromisso de nos defender.

Portanto, se alguém ofendeu você, não a Palavra de Deus, sugiro que fique em silêncio e não se preocupe. Mais cedo ou mais tarde o Senhor fará a sua defesa!

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